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Primeiro exílio
Lembro que era inverno e que uma chuva fina
e muito fria caiu por dias e dias. A casa
nos haviam oferecido para que aproveitássemos
nosso exílio de amantes recém
libertados.
Lembro que havia muito calor dentro de nós.
Muito. Pois nossos abraços e carícias
nos aqueciam. (Foi quando, creio, o perfume
da tua pele se instalou para sempre nas
minhas narinas. Desde então eu posso
reconhecê-lo, mesmo sem te ver).
Lembro que aquele povoado estava, então,
quase totalmente desabitado. Tão
diferente das épocas de verão.
Porém, que importava? Para nós,
tudo estava repleto. O mundo nos pertencia.
Lembro que ainda não tínhamos
noção de tempo. O futuro não
existia. Tudo era como se fosse naquele
momento, para sempre.
Lembro do teu sorriso. Mais do que nos retratos,
ele ficou dentro de mim. Em alguma gaveta
dentro do meu corpo. (Enquanto eu viver,
ele ali estará).
Lembro que mesmo no silêncio havia
música. Suave. Como nesses filmes
em preto e branco que passam nas madrugadas.
Lembro de ti. A minha memória sempre
foi pouca. Mas lembro de ti.
No entanto, não sei se por ser diferente
do que sou agora, ou se por não haver
espelhos na casa, eu - por mais estranho
que possa parecer -
não lembro de mim.
Simplesmente, não lembro de mim.
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O primeiro poema
O menino apanha a pena
Primeira vez frente ao papel
E o seu limite é apenas
O sonho... do chão ao céu
Em cada frase ele acalma
Algum fantasma interior
Não é a mente. É a
alma
Que dá ao verso o valor
De onde virá o seu
dom
(a estranha e antiga magia)
Fúria de luz e de som
Que faz da tinta poesia?
Vai ser Drummond ou Pessoa
Vai ser Neruda ou Quintana
Esse menino que voa
Além da fronteira humana?
Depois... ao findar a poesia
Em êxtase, olha sua mão
Igual a Deus - quem diria?
Tem o poder da criação
Mas já uma idéia
cruza
E em sua mente se grava
Há que ter pressa! - a musa
Ditou-lhe outra palavra...
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As moças do tempo
A primeira que pousou na antena
Trouxe em suas asas a notícia do
verão
Depois a outra, repetindo a cena
Confirmou a vinda da nova estação
Depois o bando, pousando nas
linhas
Cifrou um poema que copiou do vento
E pareciam musas - essas andorinhas -
Anunciando, assim, o demudar do tempo
Mas como saberiam se não
eram naves
Tampouco satélites singrando o céu?
Se - olhando assim – eram tão
só aves
Pequeninos pontos escritos num papel?
Talvez recordassem, revoando
as casas
Um tempo distante, muito mais além
Quando todos os seres ostentavam asas
Que, sendo de sonhos, voavam também
Cá embaixo homens,
neste outro extremo
Dos fios das antenas, num viver virtual
Esperam o anúncio num visor pequeno
Da nova estação, em caixas
de metal
Cada vez mais longe essa humanidade
Do idioma simples das coisas naturais
Quanto mais concreto, menos liberdade
Tem-se quase tudo... só não
se tem paz!
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cavalo)
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