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Da mesma raiz [2009]

CD de Marco Aurélio Vasconcellos interpretando canções de Martim César, Paulo Timm e Alessandro Gonçalves | mais

 
   
     
 
  Martim César | Literatura | Escritos inéditos  
     
     

| Primeiro exílio

Lembro que era inverno e que uma chuva fina e muito fria caiu por dias e dias. A casa nos haviam oferecido para que aproveitássemos nosso exílio de amantes recém libertados.

Lembro que havia muito calor dentro de nós. Muito. Pois nossos abraços e carícias nos aqueciam. (Foi quando, creio, o perfume da tua pele se instalou para sempre nas minhas narinas. Desde então eu posso reconhecê-lo, mesmo sem te ver).

Lembro que aquele povoado estava, então, quase totalmente desabitado. Tão diferente das épocas de verão. Porém, que importava? Para nós, tudo estava repleto. O mundo nos pertencia.
Lembro que ainda não tínhamos noção de tempo. O futuro não existia. Tudo era como se fosse naquele momento, para sempre.
Lembro do teu sorriso. Mais do que nos retratos, ele ficou dentro de mim. Em alguma gaveta dentro do meu corpo. (Enquanto eu viver, ele ali estará).
Lembro que mesmo no silêncio havia música. Suave. Como nesses filmes em preto e branco que passam nas madrugadas.
Lembro de ti. A minha memória sempre foi pouca. Mas lembro de ti.
No entanto, não sei se por ser diferente do que sou agora, ou se por não haver espelhos na casa, eu - por mais estranho que possa parecer -
não lembro de mim.
Simplesmente, não lembro de mim.

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| O primeiro poema

O menino apanha a pena
Primeira vez frente ao papel
E o seu limite é apenas
O sonho... do chão ao céu

Em cada frase ele acalma
Algum fantasma interior
Não é a mente. É a alma
Que dá ao verso o valor

De onde virá o seu dom
(a estranha e antiga magia)
Fúria de luz e de som
Que faz da tinta poesia?

Vai ser Drummond ou Pessoa
Vai ser Neruda ou Quintana
Esse menino que voa
Além da fronteira humana?

Depois... ao findar a poesia
Em êxtase, olha sua mão
Igual a Deus - quem diria?
Tem o poder da criação

Mas já uma idéia cruza
E em sua mente se grava
Há que ter pressa! - a musa
Ditou-lhe outra palavra...

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| As moças do tempo

A primeira que pousou na antena
Trouxe em suas asas a notícia do verão
Depois a outra, repetindo a cena
Confirmou a vinda da nova estação

Depois o bando, pousando nas linhas
Cifrou um poema que copiou do vento
E pareciam musas - essas andorinhas -
Anunciando, assim, o demudar do tempo

Mas como saberiam se não eram naves
Tampouco satélites singrando o céu?
Se - olhando assim – eram tão só aves
Pequeninos pontos escritos num papel?

Talvez recordassem, revoando as casas
Um tempo distante, muito mais além
Quando todos os seres ostentavam asas
Que, sendo de sonhos, voavam também

Cá embaixo homens, neste outro extremo
Dos fios das antenas, num viver virtual
Esperam o anúncio num visor pequeno
Da nova estação, em caixas de metal

Cada vez mais longe essa humanidade
Do idioma simples das coisas naturais
Quanto mais concreto, menos liberdade
Tem-se quase tudo... só não se tem paz!


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