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  Martim César | Literatura | Poemas do baú do tempo  
     
 


POEMAS DO BAÚ DO TEMPO

[Poesia - Lançado em 2000]
Livro de poesias bilíngue lançado pelo selo da Sociedade Mario
Quintana de Poesia em 2000.

Incluindo o poema vencedor do
“I concurso nacional de poesia Rua dos Cataventos” da Sociedade Mario Quintana de Poesia

 

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| Prefácio

Conheci o Martim César numa dessas noites frias que o inverno costuma nos presentear. O ano era 1995 e nessa ocasião, eu ainda era músico da noite. Ele e mais dois amigos seus deram-me a honra de serem a única platéia do bar repleto de cadeiras e mesas vazias, onde eu me apresentava.

De lá para cá, tornamo-nos amigos, parceiros musicais, acompanhados de madrugadas, mates e muita prosa.

Com sua poesia forte, outras vezes tocado de um lirismo incomparável, o companheiro Martim César percorre e retrata o sofrimento histórico dos povos oprimidos, bem como afaga as palavras num lindo poema de amor. Sentimento este, ao qual o artesão dos versos nos conduz, fazendo-nos compreender um pouco desse universo misterioso chamado vida.

Gracias companheiro.


Pedro Munhoz
Manhã de outono/ 2000

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Desço pelas escadas empoeiradas de mim mesmo e vou, degrau a degrau, mergulhando na penumbra do porão. Puxo uma corrente e acendo uma lâmpada que dormia há muito tempo. Ali está ele, no centro desse mundo gris. Nesse mundo de madeiras, escombros e teias de aranha. Ali está ele, da mesma forma que eu o vi da primeira vez, quando eu ainda era um menino descobrindo os limites do meu mundo. Sim...quando eu ainda era um menino que acreditava que o porão era o lugar onde os fantasmas (os mesmos que habitavam as minhas noites) se escondiam durante o dia. Não sem muito esforço, ergo a tampa. O ranger do baú parece ser um lamento. De alguma maneira é um lamento... abre-se uma porta no tempo. Quebra-se a silenciosa harmonia de anos e anos. Ali estão os manuscritos de uma época já quase esquecida. De quando todos os meus avós ainda eram vivos e eu era um pássaro de um céu sem nuvens, que, após cada vôo, sempre podia voltar para debaixo das asas dos meus pais. Tudo passou, ou melhor, tudo ficou no interior desse baú. Ali está a minha primeira pandorga, a minha bola de meia, os livros de Julio Verne e de Alexandre Dumas, (a gravura de D. Quixote que me assustava), o barquinho feito com a folha de coqueiro e lata de azeite. Ali estão os amigos da infância, os amigos do colégio (por onde andarão?), os verdureiros, os leitei-ros (porque nesse tempo ainda havia leiteiros e verdu-reiros).

Ali está o jardim da minha vó (ainda existiam muitos jardins então, hoje raros ou escondidos detrás dos muros), ali está aquela bergamoteira que eu escalava durante a sesta dos adultos... eu lembro ainda, quão difícil era, depois, livrar-me do aroma que me impregnava as mãos e denunciava o meu delito, mas, até mesmo por isso, era mais divertida essa aventura daquelas claras tardes da infância. Nunca houve outras tardes tão claras...

Amarelado e coberto de pó. Esquecido nos labirintos da memória. No fundo da cacimba de água clara da qual ainda trago o sabor. A tinta esmaecida. Ali está o meu primeiro poema. Tão singelo que não tem valor algum. Tão valioso que todos os poemas que vieram depois nasceram dele.

Sentado sobre o meu passado, viajo para dentro de mim mesmo e deixo que as lembranças me levem sem destino, à deriva nesse mar de lembranças onde naufrago, sem querer que alguém me salve...

Que entre a claridade e acorde o tempo que estava dormindo.

Martim César Gonçalves

 

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