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Prefácio
Conheci
o Martim César numa dessas noites
frias que o inverno costuma nos presentear.
O ano era 1995 e nessa ocasião, eu
ainda era músico da noite. Ele e
mais dois amigos seus deram-me a honra de
serem a única platéia do bar
repleto de cadeiras e mesas vazias, onde
eu me apresentava.
De lá para cá, tornamo-nos
amigos, parceiros musicais, acompanhados
de madrugadas, mates e muita prosa.
Com sua poesia forte, outras vezes tocado
de um lirismo incomparável, o companheiro
Martim César percorre e retrata o
sofrimento histórico dos povos oprimidos,
bem como afaga as palavras num lindo poema
de amor. Sentimento este, ao qual o artesão
dos versos nos conduz, fazendo-nos compreender
um pouco desse universo misterioso chamado
vida.
Gracias companheiro.
Pedro Munhoz
Manhã de outono/ 2000
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Desço pelas escadas
empoeiradas de mim mesmo e vou, degrau a
degrau, mergulhando na penumbra do porão.
Puxo uma corrente e acendo uma lâmpada
que dormia há muito tempo. Ali está
ele, no centro desse mundo gris. Nesse mundo
de madeiras, escombros e teias de aranha.
Ali está ele, da mesma forma que
eu o vi da primeira vez, quando eu ainda
era um menino descobrindo os limites do
meu mundo. Sim...quando eu ainda era um
menino que acreditava que o porão
era o lugar onde os fantasmas (os mesmos
que habitavam as minhas noites) se escondiam
durante o dia. Não sem muito esforço,
ergo a tampa. O ranger do baú parece
ser um lamento. De alguma maneira é
um lamento... abre-se uma porta no tempo.
Quebra-se a silenciosa harmonia de anos
e anos. Ali estão os manuscritos
de uma época já quase esquecida.
De quando todos os meus avós ainda
eram vivos e eu era um pássaro de
um céu sem nuvens, que, após
cada vôo, sempre podia voltar para
debaixo das asas dos meus pais. Tudo passou,
ou melhor, tudo ficou no interior desse
baú. Ali está a minha primeira
pandorga, a minha bola de meia, os livros
de Julio Verne e de Alexandre Dumas, (a
gravura de D. Quixote que me assustava),
o barquinho feito com a folha de coqueiro
e lata de azeite. Ali estão os amigos
da infância, os amigos do colégio
(por onde andarão?), os verdureiros,
os leitei-ros (porque nesse tempo ainda
havia leiteiros e verdu-reiros).
Ali está o jardim da minha vó
(ainda existiam muitos jardins então,
hoje raros ou escondidos detrás dos
muros), ali está aquela bergamoteira
que eu escalava durante a sesta dos adultos...
eu lembro ainda, quão difícil
era, depois, livrar-me do aroma que me impregnava
as mãos e denunciava o meu delito,
mas, até mesmo por isso, era mais
divertida essa aventura daquelas claras
tardes da infância. Nunca houve outras
tardes tão claras...
Amarelado e coberto de pó. Esquecido
nos labirintos da memória. No fundo
da cacimba de água clara da qual
ainda trago o sabor. A tinta esmaecida.
Ali está o meu primeiro poema. Tão
singelo que não tem valor algum.
Tão valioso que todos os poemas que
vieram depois nasceram dele.
Sentado sobre o meu passado, viajo para
dentro de mim mesmo e deixo que as lembranças
me levem sem destino, à deriva nesse
mar de lembranças onde naufrago,
sem querer que alguém me salve...
Que entre a claridade e acorde o tempo que
estava dormindo.
Martim César Gonçalves
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