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[Lançamento previsto para maio de 2007]
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  Martim César | Literatura | Sob a luz de velas | O espantalho  
     
| O espantalho

Quando Camilo resolveu, finalmente, colocar aquele espantalho no meio do seu milharal, não imaginou todas as funestas conseqüências que esse ato tão comum lhe causaria. Os pássaros (caturritas no mais das vezes) não deixavam vingar a plantação. Era sempre a mesma história, virar a terra, semear, adubar, capinar, cuidar da roça, para depois, quando as espigas começavam a tomar forma, virem aqueles malditos animais, com seus gritos esganiçados, roubarem o fruto de tanto serviço. Joaquina, a sua mulher, já lhe havia dito inúmeras vezes que a única solução era abater essas aves com chumbo, e ele até que tentou fazer isso. Mas, depois de algumas tentativas que não deram muito resultado, acabou por desistir dessa medida. Afinal, matara umas poucas caturritas e gastara muita munição. Não era muito sabido nesses assuntos de cálculos... mas, conforme apurara, em suas noites iluminadas à luz de vela, antes que o sono lhe alcançasse, esse método não parecia ser dos mais inteligentes, pois o que lucraria com o milho haveria de pagar com o chumbo. Definitivamente, tinha que pensar em outra coisa. Em outra maneira. Foi por isso que começou a confeccio-nar os espantalhos.

O primeiro que ele criou era muito rústico. A mulher fez o rosto. Com palha de milho, pano, alguns botões imitando olhos e tinta para formar a boca. Os membros foram feitos de bambus forrados precaria-mente. Quando, enfim, ficou pronto, Camilo colocou-o no meio do milharal. No princípio, aquele boneco que não era lá muito parecido com uma imagem humana, realmente afastou os pássaros. Mas, depois de alguns dias, talvez por notarem que aquele intruso não poderia lhes causar dano algum (já que não era um homem), as aves voltaram a infernizar a plantação. Isso ocorreu várias vezes, com cada um dos espantalhos que o casal criava. Ainda que colocassem dois, três ou até meia dúzia deles... era sempre a mesma história. Camilo, em sua simplicidade de homem do campo, não entendia o porquê de não funcionar aquele método. Por mais que matutasse não entendia. Sempre que estava no milharal, as aves se assustavam com a sua chegada... “se era assim, então, por que cargas d’água, quando eram colocadas as imitações humanas, elas não funcionavam? Real-mente não compreendia”. Porém, a cada derrota, ele tornava-se mais forte. Sempre fora obstinado e não era agora que iria mudar o seu jeito de ser. Pôs-se, então, a fazer “o espantalho”. Não era um espantalho a mais. Era “o espantalho”, pois este seria tão perfeito que só analisando-o de muito perto, alguém poderia dizer que não se tratava de um ser humano.

Mediu o seu próprio comprimento. Verificou, com atenção, a largura dos seus braços e pernas, a cor da pele, o cabelo... enfim, todos os detalhes que fizessem o boneco parecer-se com um ser vivente. Foi, então, até a cidade, que não ficava muito distante da sua chácara, e comprou tecido, tintas, barbante e tudo o mais que fosse necessário para o que pretendia. Depois de alguns dias de serviço e de retoques e mais retoques, chegou, afinal, ao seu objetivo. Colocou, inclusive, um sistema de molas nas articulações. Mãos e pés com dobradiças e carretéis metálicos imitando dedos. Joelhos, tornozelos, cotovelos, pescoço, pul-sos... todos móveis, que se mexiam conforme o vento. Estava quase perfeito. Somente faltava o detalhe final: as roupas. Para tanto, vestiu-o com o seu casaco de gabardina, o seu chapéu de palha, a sua calça re-mendada e as suas galochas. Certo era que agora teria que providenciar outras vestimentas para si, mas contanto que conseguisse o seu objetivo, o sacrifício haveria de valer a pena. Só em olhar para aquela imagem - muito parecida à sua própria imagem - já valia tudo o que tinha passado nesses últimos dias. Período em que quase não cuidara da roça, envolvido que estava em serviço tão incomum. Nesse ínterim, a plantação, abandonada, fora atacada impiedosamente pelos pássaros. Entretanto, essa seria a última vitória daqueles malditos animais... “Ah! Eles logo... logo iriam ver com quantos paus se faz uma canoa... ah! Se iam...”

E, afinal, funcionou! Desde o dia em que o espantalho foi colocado no meio da plantação, os pássaros não apareceram mais. Ainda assim Camilo esperou... “Gato escaldado tem medo até de água fria”. Talvez eles voltassem, como das outras vezes, depois de se acostumarem com a imagem. Porém, para a sua satisfação, não retornaram. “Até que enfim” - disse Dona Joaquina - “Até que enfim”. A obstinação do seu marido tinha dado resultado.

Depois disso, tudo começou a correr tranqüi-lamente na Chácara dos Tojos (assim se chamava a pequena propriedade do casal, devido, é óbvio, àquelas plantas, típicas da região). As plantações germinavam sem problema algum e, com o lucro da colheita, Camilo começou, inclusive, a fazer melhorias na sua casa. Agora, o único que lhe incomodava um pouco era a vizinhança. De um lado, num rancho quase tapera de tão descuidado, viviam os irmãos Canhada, conhe-cidos por arruaceiros. Um deles, diziam, tinha até alguma morte nas costas, porém, não havia nada provado. O difícil era agüentar a bagunça que faziam nos fins de semana, com muito ruído, música, mulheres (por certo de algum antro), e bebedeiras até o amanhecer. Isso perturbava a paz daquele lugar que já fora bastante sossegado. Entretanto, ponderou Ca-milo, a distância era relativamente grande, e o rumor daquelas orgias chegava bastante mais atenuado até a sua casa. Perto das caturritas, aquilo até que era suportável. Do outro lado, morava a imensa família dos Gorleros. Viviam miseravelmente e eram conhecidos por ladrões. De pai para filho, todos com o mesmo hábito. Sempre que desaparecia um animal na região, a polícia vinha dar batida naquele rancho e, na maioria das vezes, eles saíam de lá com o produto do roubo e com algum dos filhos ou sobrinhos dos Gorleros. Viviam numa espécie de comunidade, abrigando toda a imensa parentalha. Pelo que Camilo sabia, o único que trabalhava mesmo era o velho. Consertava qualquer coisa. Desde arado até fogão à lenha. Mas esses biscates não davam para sustentar tão numerosa prole... daí a necessidade dos roubos. Camilo sabia disso, mas o que fazer? Desde que não atacassem os seus poucos animais, e isso parecia ser uma questão séria para os seus vizinhos. Sempre agiam longe de onde moravam. “Ainda bem” – pensou - “Com aquela vizinhança complicada, mas sem as malditas aves... até que vivia bem melhor do que antes”.
Já na cidade, um amontoado de casas toscas que se empilhara em torno de uma pequena rua e algumas vielas, e que recém se emancipara, a vida não andava tão bem assim. Estranhas coisas começaram a ocorrer. Primeiro foi o desaparecimento de animais domésticos. Todas as noites alguém tinha uma queixa para fazer. Porcos, cabras, galinhas... não havia noite que não desaparecesse algum bicho. O contingente de policiais era escasso: dois apenas e, por isso, não tinham como dar conta do que estava acontecendo. Ademais... roubo de galinha era algo comum. O mais fácil era que os próprios donos cuidassem dos seu animais. No princípio, como sempre faziam nessas situações de pequenos furtos, eles foram até o rancho dos Gorleros, porém, dessa vez, eles não acharam nenhuma pista que os incriminassem. Havia outro gatuno agindo na região. Certamente...
A situação piorou quando começou a ocorrer a morte de animais maiores. O gado era abatido e carneado no mesmo local. Ficava somente a carcaça, para dar alimento aos corvos. Tantos foram os casos que os moradores daquela região se indignaram e começaram a fazer vigílias com o propósito de des-cobrir o causador daquela série de acontecimentos. Sempre em grupos, eles ficavam à espreita nos lugares mais prováveis de ataque do misterioso ladrão. Porém, os resultados não foram os esperados. O bandido pa-recia conhecer os passos dos seus perseguidores e atacava em locais distantes de onde estavam. Essa situação perdurou por meses, a ponto de quase todos os moradores se engajarem naquela cruzada em defesa de seus animais. Por fim, com o passar do tempo, os prejuízos se tornaram enormes, insustentáveis para quem vivia da criação. O desespero começou a tomar conta de todos.

Porém tudo mudaria... e para pior.

Naquela noite fria de junho, o velho Ambrósio, que tinha ficado na sua casa, mais pelo ataque de bronquite asmática que por sua vontade (normalmen-te, durante o anoitecer, ia visitar a sua filha), foi ver o porquê do rebuliço no seu galinheiro. “Poderia ser uma raposa, muito comum nos arredores... ou então... algum animal de duas patas” – Pensou para si. Por via das dúvidas, saiu munido de uma lanterna e de uma escopeta de cano cerrado que espalhava chumbo “que era uma maravilha”. Ele dizia, às vezes, que se o atirador se descuidasse, até mesmo nele o chumbo pegava... “era coisa mui linda de se ver”.
Foi quando viu aquele vulto humano... a uns poucos metros à sua frente... ocupado em carnear um dos seus cabritos. Tão compenetrado estava, que não viu a sua aproximação. Enfim, o ladrão de que todos falavam... ali... à sua mercê. O velho conteve a sua respiração a muito custo... doíam-lhe os pulmões, mas não iria perder aquela oportunidade... chegou até uns cinco metros de onde estava o ladrão... foi quando o vulto se virou... a imagem daquele rosto lhe deixou paralisado. Os pulmões buscaram ar, mas foi inútil... ele não veio. “Não pode ser... não pode ser” - alcançou a pensar o velho Ambrósio e foi o seu último pensa-mento.

Encontraram o seu corpo caído no fundo do pátio. Ainda com a velha escopeta nas mãos. Nos olhos uma expressão de espanto. O diagnóstico do médico local (que servia mais para curandeiro que para outra coisa), foi de morte por insuficiência respiratória. O velho, sendo asmático, não podia haver saído numa noite tão fria como a anterior. Tinha sido uma morte quase fulminante. Já o restante do povo, ao verem a carcaça do cabrito, os rastros de sangue do animal, imputaram aquela morte ao ladrão que lhes infernizava a vida. Com certeza o velho tinha visto o dito cujo e ele, de alguma forma misteriosa, o havia matado. Isso era certo.

Passaram-se mais algumas semanas e os roubos prosseguiram. A polícia ganhou reforços vindos da capital. Agora eram cinco agentes. Puseram-se, então, a trabalhar com mais efetividade, fazendo novas batidas na casa dos Gorleros e em outras casas onde poderiam haver suspeitos. Estiveram, também, na casa dos irmãos Canhada. Até então os dois policiais da cidade jamais tinham se atrevido a tanto, com medo da fama daqueles dois, dessa vez, porém, com o reforço que receberam, foram investigá-los, sem, no entanto, encontrarem nada que os denunciasse. Por mais que procurassem, nem sinal do bandido.
A cidade, a essa altura, começou a ficar em pânico. Seus moradores se protegiam fechando cedo as suas casas. Os bares, salvo uma rara exceção, não abriam depois de anoitecer. O único que permaneceu aberto foi o do Seu Galeno. Além de ser o mais tradicional da cidade, era onde os trabalhadores do lugar iam tomar os seus goles de canha e graspa após as lidas do dia-a-dia. Ali também era o ponto de encontro dos cantadores, dos jogadores de truco, dos borrachos e dos malevas que, vez por outra, arran-javam alguma confusão, resolvida, no mais das vezes, com um talho de faca ou um tiro de revólver. Talvez, por isso, “a pulperia do seu Galeno” como lhe chama-vam os seus freqüentadores, continuava funcionando, quando os outros recintos, mais sociais, não fizeram questão de se arriscarem com aquele estranho ladrão atacando em quase todas as noites.

Quando, naquele começo de madrugada, o seu Galeno fechou o bar e foi dormir no quarto que ficava atrás do estabelecimento, viu algo estranho. Ao fechar a cortina da janela, percebeu que a porteira que dava para o pomar estava aberta. A lua era cheia e, talvez por isso, ele pôde ver um vulto cruzando o alambrado. Conseguiu vislumbrar o brilho de metal nas mãos daquela silhueta sombria, mas não divisou o que podia ser. Um arrepio percorreu o seu corpo, mas não teve dúvida. Apanhou o seu revólver. Ele o utilizava para apaziguar os ânimos que, volta e meia, se exaltavam na sua pulperia. Quando saiu à rua, contornando a cacimba, já não viu mais o vulto. Tinha sumido. Somente conseguiu ver os seus rastros. Tinha chovido e ficaram marcas de botas pelo pátio. Ele - o vulto - havia procurado por algo, mas, talvez... como não houvesse nenhum animal por ali, desistira. “Sorte do bandido que conseguiu se safar a tempo”. Assim pensava o pulpero. Depois, com extrema cautela, ainda deu uma revistada no fundo do pomar, mas não conseguiu encontrá-lo.

Mas, naquela noite, outros o encontraram.

Quando Romualdo e Pedro Dias, este mais conhecido pelo apelido de “Cicatriz” (devido, é óbvio, àquela feia marca que lhe cortava o pômulo esquerdo da face), deixaram a pulperia, já estavam bastante embriagados. Os dois eram muito temidos na cidade pois, por não terem uma ocupação fixa, passavam tomando canha, provocando brigas e arranjando toda espécie de confusões. Andavam sempre armados de faca e diziam não ter medo de ninguém. Diziam não temer nem mesmo o estranho bandido que, naqueles dias, era o assunto mais comentado no lugar. “Que se atrevesse a cruzar com eles... iria ser carneado como os animais que roubava...”

– Diziam. Eram realmente perigosos aqueles dois. Estavam sempre juntos e isso aumentava o perigo para os demais. Quem se defrontasse com um deles, havia que, necessariamente, enfrentar o outro também. A cidade sempre esperara, secretamente, o confronto entre aqueles dois e os irmãos Canhada. Mas isso nunca aconteceu... e, depois dessa noite, não mais aconteceria.

Quando eles estavam quase chegando em casa (os dois moravam em barracos vizinhos, nos arredores da cidade), viram aquele vulto se esgueirando atrás da casa do Romualdo. Os dois vinham cambaleantes e estavam quase adormecidos, mas, naquele instante, a embriaguez desapareceu, como por milagre. “Havia alguém ali”. Repentinamente acordado, com a adrena-lina fazendo-lhe disparar o coração, o Cicatriz, através de um gesto, indicou que Romualdo contornasse
a casa por um lado e ele fez o mesmo pelo outro. Os dois desembainharam as suas facas. Nessa hora, na escuridão, ambos esqueceram as suas bravatas e, invadidos por uma sensação incontrolável, sentiram medo. Estranhamente sentiram medo. Cada passo lhes custava mais do que cada ano vivido. Um frio indescritível invadiu suas entranhas e se aninhou em seus estômagos. No entanto, tinham que seguir... e seguiram... com as facas empunhadas... lentamente... pé ante pé... chegaram até o fundo da casa... pres-sentiram o vulto e aí atacaram...

Os vizinhos mais próximos somente os encon-traram na tarde do outro dia. Cicatriz ainda estava vivo. Gemia e respirava com dificuldade, pois tinha perdido muito sangue. Fora ferido em várias partes do corpo e era um milagre que ainda respirasse. No entanto, parecia que tivera mais sorte que Romualdo, pois este jazia atirado em uma poça de sangue, com os olhos vidrados, apontando para o céu. Sem dúvida, estava morto. Levaram Cicatriz para o ambulatório (na verdade, um pequeno posto de saúde) e tentaram reanimá-lo. Talvez resistisse. Os policiais, que chega-ram logo depois, queriam saber a identidade do as-sassino. Porém, havia que esperar. Cicatriz estava em algum lugar distante, entre a vida e a morte... não havia outro jeito... teriam que esperar.

Os agentes foram novamente até o local do acontecido, para procurar pistas. As duas facas encontradas, banhadas em sangue, não serviram para muita coisa. Eram tantos os ferimentos daqueles dois infelizes que, certamente, o sangue deles embebera as armas. Sobre o terreno havia somente as pegadas dos dois. Os rastros vinham da rua, contornavam a casa e se encontravam no lugar onde eles foram achados. Era um mistério! Parecia que não houvera mais ninguém por ali. “Mas por que se enfrentariam?... E daquela forma? Nem a bebida explicava isso. Sempre se deram bem... as rusgas eram sempre com os outros, nunca entre eles... não!... decerto havia algo mais”. Um dos agentes encontrou outras pegadas, mas elas se perdiam na esquina da casa, como se alguém tivesse subido até o telhado ou saltado para a grama. Trou-xeram uma escada, então, e, com extremo cuidado, verificaram o telhado. Mas não descobriram nenhum vestígio de que alguém estivera ali. Mistério.

Foi quando Seu Galeno, o pulpero, disse que na noite anterior tinha visto um vulto no seu pátio. Saíra atrás dele, mas não conseguira alcançá-lo. Os agentes perguntaram como era o tal suspeito. Mas, como já era de se esperar, seu Galeno disse que não conseguira divisá-lo muito bem... embora a noite fosse de lua cheia, ele somente vira o vulto pela janela, quando já estava se afastando para o fundo do pomar. O que podia dizer é que parecia ser um homem alto, que usava chapéu. Infelizmente, não pudera ver mais do que isso.

Resolveram ir, então, até a pulperia. Lá chegando conseguiram encontrar as pegadas de um homem, tal qual o pulpero havia relatado. Além das do Seu Galeno, havia rastros feitos por botas. Esses rastros entravam e saíam do pomar pelo fundo. A terra fofa, molhada da chuva da tarde anterior, mostrava claramente o caminho traçado pelo bandido. Ou me-lhor, os caminhos, pois existiam dois. Havia que segui-los. Um dos rastros seguia em direção ao outro lado da cidade e, por essa razão, um dos agentes da capital - o que parecia ser o líder natural dos demais - argüiu que essas pegadas levariam, certamente, até a casa do Romualdo. “Finado Romualdo” – Emendou um dos agentes locais. O agente da capital que, pelo olhar de reprovação, demonstrou não gostar muito da intro-missão, completou dizendo que as outras pegadas levariam até a casa do bandido. Eram essas que deveriam seguir. E assim fizeram.

Depois de saírem da cidade, seguindo por uma estrada vicinal, chegaram até o local onde as pegadas atravessavam um alambrado. Elas levavam até um milharal. Ali, devido às palhas que se esparramavam pelo chão, desapareciam. O local era bem conhecido dos agentes locais. Era a chácara de um casal muito benquisto na região: a morada de um agricultor chamado Camilo e de sua esposa Joaquina. Os poli-ciais resolveram, então, visitá-los. Surpreso, Camilo deixou que revistassem a sua casa e se dispôs a ajudá-los no que precisassem. Eles, porém, não encontraram nada. Confusos, resolveram visitar outra vez os vizinhos. “Era bem possível que eles tivessem algo a ver com as ocorrências”. Mas, como das outras vezes, não puderam encontrar a mínima pista. Tanto os Canhada, como os Gorleros, diziam que não tinham nada para esconder e se tinham, haviam escondido muito bem – Pensavam os policiais - pois nada foi encontrado.

Resolveram, a partir daí, fazer uma ronda permanente naquele local. Revezaram-se na campana, dois ou três policiais, noite após noite. Dessa forma quase uma semana passou-se e nada de verem alguma coisa. Contudo, havia um indício importante: desde o começo da vigília não ocorrera mais nenhum incidente. Esse era um bom sinal. E isso levantava ainda mais a suspeita sobre os vizinhos do casal de agricultores. Como a polícia estava por perto, eles não agiam. Dez dias se passaram sem novidade alguma: nem roubo, nem ladrão. Porém, no décimo primeiro dia, quando todos já estavam cansados daquela história, aconteceu o que esperavam... ou não. Naquele turno - da meia-noite até as seis horas da manhã - apenas dois agentes estavam de guarda e um deles, Silvério (um dos agentes locais), tinha se afastado um pouco da beira do alambrado para verificar o barulho que ouvia no rancho dos Canhada. Quando regressava, pensando na balbúrdia que aqueles dois estavam promovendo, foi que viu o vulto... Ele, Silvério, estava a uns cinqüenta metros do local onde o seu companheiro, um dos agentes da capital, tinha ficado. Forçou as pupilas, para que a sua visão atravessasse a escuridão, no entanto, somente o que pôde ver, devido à distância e à parca luminosidade, foi o vulto entrando no milharal. Notou que usava chapéu de palha e um casaco. Foi um instante e aquela sombra sumiu, embrenhando-se na plantação, sem deixar ação nenhuma para o policial. Silvério correu até onde estava o seu companheiro. Ali não havia ninguém... mas, para desconcerto seu, havia, isto sim, um rastro de sangue e ele o seguiu. Na valeta, ao lado da estrada, estava o corpo. Com vários ferimentos e ainda sangrando, jazia o policial. Ainda vivia e com um último gesto, num derradeiro esforço, levantou o braço esquerdo e apontou para o lado do milharal, na direção da chácara de Camilo.

A cidade entrou em comoção. Levaram Camilo preso. Contra ele, além do assassinato em sua chácara, existiam as pegadas que levavam para o milharal. E mais, havia o testemunho de Silvério, que afirmava taxativamente que o policial morto apontara na direção da sua casa. Para piorar ainda mais a sua situação, o Cicatriz não havia resistido aos ferimen-tos. Ele, talvez, pudesse elucidar aquele caso, afinal era o único sobrevivente de um encontro com o bandido. Mas... agora...
Dizem que a cadeia - um pequeno prédio que muito poucas vezes foi usado - não serviu de abrigo para a fúria da população. Dizem, também, que os policiais (principalmente os da capital), não fizeram muita questão de defender o acusado. Quando a turba invadiu, naquela fatídica madrugada, Camilo estava sentado num banco de madeira, resignado em seu canto, conversando com o Silvério, ainda sem entender muito bem o que havia acontecido. Perguntava ao seu interlocutor se ele tinha lhe reconhecido como o assassino do policial, ao que, Silvério respondera:

- Tenho quase certeza disso, ainda que eu estivesse um pouco longe, eu pude reconhecer aquelas roupas... as mesmas que tu usavas antes: um casaco de gabardina, umas calças velhas, umas galochas e um chapéu de palha.

Um repentino relâmpago cruzou a cabeça de Camilo... uma imagem nítida se formou em sua mente...

“Mas era impossível... isso era impossível”!

Quis falar alguma coisa, mas já os primeiros invasores tinham entrado no prédio. Não houve tempo para mais nada.


 

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