| |
O
espantalho
Quando Camilo resolveu, finalmente, colocar
aquele espantalho no meio do seu milharal,
não imaginou todas as funestas conseqüências
que esse ato tão comum lhe causaria.
Os pássaros (caturritas no mais das
vezes) não deixavam vingar a plantação.
Era sempre a mesma história, virar
a terra, semear, adubar, capinar, cuidar
da roça, para depois, quando as espigas
começavam a tomar forma, virem aqueles
malditos animais, com seus gritos esganiçados,
roubarem o fruto de tanto serviço.
Joaquina, a sua mulher, já lhe havia
dito inúmeras vezes que a única
solução era abater essas aves
com chumbo, e ele até que tentou
fazer isso. Mas, depois de algumas tentativas
que não deram muito resultado, acabou
por desistir dessa medida. Afinal, matara
umas poucas caturritas e gastara muita munição.
Não era muito sabido nesses assuntos
de cálculos... mas, conforme apurara,
em suas noites iluminadas à luz de
vela, antes que o sono lhe alcançasse,
esse método não parecia ser
dos mais inteligentes, pois o que lucraria
com o milho haveria de pagar com o chumbo.
Definitivamente, tinha que pensar em outra
coisa. Em outra maneira. Foi por isso que
começou a confeccio-nar os espantalhos.
O primeiro que ele criou era muito rústico.
A mulher fez o rosto. Com palha de milho,
pano, alguns botões imitando olhos
e tinta para formar a boca. Os membros foram
feitos de bambus forrados precaria-mente.
Quando, enfim, ficou pronto, Camilo colocou-o
no meio do milharal. No princípio,
aquele boneco que não era lá
muito parecido com uma imagem humana, realmente
afastou os pássaros. Mas, depois
de alguns dias, talvez por notarem que aquele
intruso não poderia lhes causar dano
algum (já que não era um homem),
as aves voltaram a infernizar a plantação.
Isso ocorreu várias vezes, com cada
um dos espantalhos que o casal criava. Ainda
que colocassem dois, três ou até
meia dúzia deles... era sempre a
mesma história. Camilo, em sua simplicidade
de homem do campo, não entendia o
porquê de não funcionar aquele
método. Por mais que matutasse não
entendia. Sempre que estava no milharal,
as aves se assustavam com a sua chegada...
“se era assim, então, por que
cargas d’água, quando eram
colocadas as imitações humanas,
elas não funcionavam? Real-mente
não compreendia”. Porém,
a cada derrota, ele tornava-se mais forte.
Sempre fora obstinado e não era agora
que iria mudar o seu jeito de ser. Pôs-se,
então, a fazer “o espantalho”.
Não era um espantalho a mais. Era
“o espantalho”, pois este seria
tão perfeito que só analisando-o
de muito perto, alguém poderia dizer
que não se tratava de um ser humano.
Mediu o seu próprio comprimento.
Verificou, com atenção, a
largura dos seus braços e pernas,
a cor da pele, o cabelo... enfim, todos
os detalhes que fizessem o boneco parecer-se
com um ser vivente. Foi, então, até
a cidade, que não ficava muito distante
da sua chácara, e comprou tecido,
tintas, barbante e tudo o mais que fosse
necessário para o que pretendia.
Depois de alguns dias de serviço
e de retoques e mais retoques, chegou, afinal,
ao seu objetivo. Colocou, inclusive, um
sistema de molas nas articulações.
Mãos e pés com dobradiças
e carretéis metálicos imitando
dedos. Joelhos, tornozelos, cotovelos, pescoço,
pul-sos... todos móveis, que se mexiam
conforme o vento. Estava quase perfeito.
Somente faltava o detalhe final: as roupas.
Para tanto, vestiu-o com o seu casaco de
gabardina, o seu chapéu de palha,
a sua calça re-mendada e as suas
galochas. Certo era que agora teria que
providenciar outras vestimentas para si,
mas contanto que conseguisse o seu objetivo,
o sacrifício haveria de valer a pena.
Só em olhar para aquela imagem -
muito parecida à sua própria
imagem - já valia tudo o que tinha
passado nesses últimos dias. Período
em que quase não cuidara da roça,
envolvido que estava em serviço tão
incomum. Nesse ínterim, a plantação,
abandonada, fora atacada impiedosamente
pelos pássaros. Entretanto, essa
seria a última vitória daqueles
malditos animais... “Ah! Eles logo...
logo iriam ver com quantos paus se faz uma
canoa... ah! Se iam...”
E, afinal, funcionou! Desde o dia em que
o espantalho foi colocado no meio da plantação,
os pássaros não apareceram
mais. Ainda assim Camilo esperou... “Gato
escaldado tem medo até de água
fria”. Talvez eles voltassem, como
das outras vezes, depois de se acostumarem
com a imagem. Porém, para a sua satisfação,
não retornaram. “Até
que enfim” - disse Dona Joaquina -
“Até que enfim”. A obstinação
do seu marido tinha dado resultado.
Depois disso, tudo começou a correr
tranqüi-lamente na Chácara dos
Tojos (assim se chamava a pequena propriedade
do casal, devido, é óbvio,
àquelas plantas, típicas da
região). As plantações
germinavam sem problema algum e, com o lucro
da colheita, Camilo começou, inclusive,
a fazer melhorias na sua casa. Agora, o
único que lhe incomodava um pouco
era a vizinhança. De um lado, num
rancho quase tapera de tão descuidado,
viviam os irmãos Canhada, conhe-cidos
por arruaceiros. Um deles, diziam, tinha
até alguma morte nas costas, porém,
não havia nada provado. O difícil
era agüentar a bagunça que faziam
nos fins de semana, com muito ruído,
música, mulheres (por certo de algum
antro), e bebedeiras até o amanhecer.
Isso perturbava a paz daquele lugar que
já fora bastante sossegado. Entretanto,
ponderou Ca-milo, a distância era
relativamente grande, e o rumor daquelas
orgias chegava bastante mais atenuado até
a sua casa. Perto das caturritas, aquilo
até que era suportável. Do
outro lado, morava a imensa família
dos Gorleros. Viviam miseravelmente e eram
conhecidos por ladrões. De pai para
filho, todos com o mesmo hábito.
Sempre que desaparecia um animal na região,
a polícia vinha dar batida naquele
rancho e, na maioria das vezes, eles saíam
de lá com o produto do roubo e com
algum dos filhos ou sobrinhos dos Gorleros.
Viviam numa espécie de comunidade,
abrigando toda a imensa parentalha. Pelo
que Camilo sabia, o único que trabalhava
mesmo era o velho. Consertava qualquer coisa.
Desde arado até fogão à
lenha. Mas esses biscates não davam
para sustentar tão numerosa prole...
daí a necessidade dos roubos. Camilo
sabia disso, mas o que fazer? Desde que
não atacassem os seus poucos animais,
e isso parecia ser uma questão séria
para os seus vizinhos. Sempre agiam longe
de onde moravam. “Ainda bem”
– pensou - “Com aquela vizinhança
complicada, mas sem as malditas aves...
até que vivia bem melhor do que antes”.
Já na cidade, um amontoado de casas
toscas que se empilhara em torno de uma
pequena rua e algumas vielas, e que recém
se emancipara, a vida não andava
tão bem assim. Estranhas coisas começaram
a ocorrer. Primeiro foi o desaparecimento
de animais domésticos. Todas as noites
alguém tinha uma queixa para fazer.
Porcos, cabras, galinhas... não havia
noite que não desaparecesse algum
bicho. O contingente de policiais era escasso:
dois apenas e, por isso, não tinham
como dar conta do que estava acontecendo.
Ademais... roubo de galinha era algo comum.
O mais fácil era que os próprios
donos cuidassem dos seu animais. No princípio,
como sempre faziam nessas situações
de pequenos furtos, eles foram até
o rancho dos Gorleros, porém, dessa
vez, eles não acharam nenhuma pista
que os incriminassem. Havia outro gatuno
agindo na região. Certamente...
A situação piorou quando começou
a ocorrer a morte de animais maiores. O
gado era abatido e carneado no mesmo local.
Ficava somente a carcaça, para dar
alimento aos corvos. Tantos foram os casos
que os moradores daquela região se
indignaram e começaram a fazer vigílias
com o propósito de des-cobrir o causador
daquela série de acontecimentos.
Sempre em grupos, eles ficavam à
espreita nos lugares mais prováveis
de ataque do misterioso ladrão. Porém,
os resultados não foram os esperados.
O bandido pa-recia conhecer os passos dos
seus perseguidores e atacava em locais distantes
de onde estavam. Essa situação
perdurou por meses, a ponto de quase todos
os moradores se engajarem naquela cruzada
em defesa de seus animais. Por fim, com
o passar do tempo, os prejuízos se
tornaram enormes, insustentáveis
para quem vivia da criação.
O desespero começou a tomar conta
de todos.
Porém tudo mudaria... e para pior.
Naquela noite fria de junho, o velho Ambrósio,
que tinha ficado na sua casa, mais pelo
ataque de bronquite asmática que
por sua vontade (normalmen-te, durante o
anoitecer, ia visitar a sua filha), foi
ver o porquê do rebuliço no
seu galinheiro. “Poderia ser uma raposa,
muito comum nos arredores... ou então...
algum animal de duas patas” –
Pensou para si. Por via das dúvidas,
saiu munido de uma lanterna e de uma escopeta
de cano cerrado que espalhava chumbo “que
era uma maravilha”. Ele dizia, às
vezes, que se o atirador se descuidasse,
até mesmo nele o chumbo pegava...
“era coisa mui linda de se ver”.
Foi quando viu aquele vulto humano... a
uns poucos metros à sua frente...
ocupado em carnear um dos seus cabritos.
Tão compenetrado estava, que não
viu a sua aproximação. Enfim,
o ladrão de que todos falavam...
ali... à sua mercê. O velho
conteve a sua respiração a
muito custo... doíam-lhe os pulmões,
mas não iria perder aquela oportunidade...
chegou até uns cinco metros de onde
estava o ladrão... foi quando o vulto
se virou... a imagem daquele rosto lhe deixou
paralisado. Os pulmões buscaram ar,
mas foi inútil... ele não
veio. “Não pode ser... não
pode ser” - alcançou a pensar
o velho Ambrósio e foi o seu último
pensa-mento.
Encontraram o seu corpo caído no
fundo do pátio. Ainda com a velha
escopeta nas mãos. Nos olhos uma
expressão de espanto. O diagnóstico
do médico local (que servia mais
para curandeiro que para outra coisa), foi
de morte por insuficiência respiratória.
O velho, sendo asmático, não
podia haver saído numa noite tão
fria como a anterior. Tinha sido uma morte
quase fulminante. Já o restante do
povo, ao verem a carcaça do cabrito,
os rastros de sangue do animal, imputaram
aquela morte ao ladrão que lhes infernizava
a vida. Com certeza o velho tinha visto
o dito cujo e ele, de alguma forma misteriosa,
o havia matado. Isso era certo.
Passaram-se mais algumas semanas e os roubos
prosseguiram. A polícia ganhou reforços
vindos da capital. Agora eram cinco agentes.
Puseram-se, então, a trabalhar com
mais efetividade, fazendo novas batidas
na casa dos Gorleros e em outras casas onde
poderiam haver suspeitos. Estiveram, também,
na casa dos irmãos Canhada. Até
então os dois policiais da cidade
jamais tinham se atrevido a tanto, com medo
da fama daqueles dois, dessa vez, porém,
com o reforço que receberam, foram
investigá-los, sem, no entanto, encontrarem
nada que os denunciasse. Por mais que procurassem,
nem sinal do bandido.
A cidade, a essa altura, começou
a ficar em pânico. Seus moradores
se protegiam fechando cedo as suas casas.
Os bares, salvo uma rara exceção,
não abriam depois de anoitecer. O
único que permaneceu aberto foi o
do Seu Galeno. Além de ser o mais
tradicional da cidade, era onde os trabalhadores
do lugar iam tomar os seus goles de canha
e graspa após as lidas do dia-a-dia.
Ali também era o ponto de encontro
dos cantadores, dos jogadores de truco,
dos borrachos e dos malevas que, vez por
outra, arran-javam alguma confusão,
resolvida, no mais das vezes, com um talho
de faca ou um tiro de revólver. Talvez,
por isso, “a pulperia do seu Galeno”
como lhe chama-vam os seus freqüentadores,
continuava funcionando, quando os outros
recintos, mais sociais, não fizeram
questão de se arriscarem com aquele
estranho ladrão atacando em quase
todas as noites.
Quando, naquele começo de madrugada,
o seu Galeno fechou o bar e foi dormir no
quarto que ficava atrás do estabelecimento,
viu algo estranho. Ao fechar a cortina da
janela, percebeu que a porteira que dava
para o pomar estava aberta. A lua era cheia
e, talvez por isso, ele pôde ver um
vulto cruzando o alambrado. Conseguiu vislumbrar
o brilho de metal nas mãos daquela
silhueta sombria, mas não divisou
o que podia ser. Um arrepio percorreu o
seu corpo, mas não teve dúvida.
Apanhou o seu revólver. Ele o utilizava
para apaziguar os ânimos que, volta
e meia, se exaltavam na sua pulperia. Quando
saiu à rua, contornando a cacimba,
já não viu mais o vulto. Tinha
sumido. Somente conseguiu ver os seus rastros.
Tinha chovido e ficaram marcas de botas
pelo pátio. Ele - o vulto - havia
procurado por algo, mas, talvez... como
não houvesse nenhum animal por ali,
desistira. “Sorte do bandido que conseguiu
se safar a tempo”. Assim pensava o
pulpero. Depois, com extrema cautela, ainda
deu uma revistada no fundo do pomar, mas
não conseguiu encontrá-lo.
Mas, naquela noite, outros o encontraram.
Quando Romualdo e Pedro Dias, este mais
conhecido pelo apelido de “Cicatriz”
(devido, é óbvio, àquela
feia marca que lhe cortava o pômulo
esquerdo da face), deixaram a pulperia,
já estavam bastante embriagados.
Os dois eram muito temidos na cidade pois,
por não terem uma ocupação
fixa, passavam tomando canha, provocando
brigas e arranjando toda espécie
de confusões. Andavam sempre armados
de faca e diziam não ter medo de
ninguém. Diziam não temer
nem mesmo o estranho bandido que, naqueles
dias, era o assunto mais comentado no lugar.
“Que se atrevesse a cruzar com eles...
iria ser carneado como os animais que roubava...”
– Diziam. Eram realmente perigosos
aqueles dois. Estavam sempre juntos e isso
aumentava o perigo para os demais. Quem
se defrontasse com um deles, havia que,
necessariamente, enfrentar o outro também.
A cidade sempre esperara, secretamente,
o confronto entre aqueles dois e os irmãos
Canhada. Mas isso nunca aconteceu... e,
depois dessa noite, não mais aconteceria.
Quando eles estavam quase chegando em casa
(os dois moravam em barracos vizinhos, nos
arredores da cidade), viram aquele vulto
se esgueirando atrás da casa do Romualdo.
Os dois vinham cambaleantes e estavam quase
adormecidos, mas, naquele instante, a embriaguez
desapareceu, como por milagre. “Havia
alguém ali”. Repentinamente
acordado, com a adrena-lina fazendo-lhe
disparar o coração, o Cicatriz,
através de um gesto, indicou que
Romualdo contornasse
a casa por um lado e ele fez o mesmo pelo
outro. Os dois desembainharam as suas facas.
Nessa hora, na escuridão, ambos esqueceram
as suas bravatas e, invadidos por uma sensação
incontrolável, sentiram medo. Estranhamente
sentiram medo. Cada passo lhes custava mais
do que cada ano vivido. Um frio indescritível
invadiu suas entranhas e se aninhou em seus
estômagos. No entanto, tinham que
seguir... e seguiram... com as facas empunhadas...
lentamente... pé ante pé...
chegaram até o fundo da casa... pres-sentiram
o vulto e aí atacaram...
Os vizinhos mais próximos somente
os encon-traram na tarde do outro dia. Cicatriz
ainda estava vivo. Gemia e respirava com
dificuldade, pois tinha perdido muito sangue.
Fora ferido em várias partes do corpo
e era um milagre que ainda respirasse. No
entanto, parecia que tivera mais sorte que
Romualdo, pois este jazia atirado em uma
poça de sangue, com os olhos vidrados,
apontando para o céu. Sem dúvida,
estava morto. Levaram Cicatriz para o ambulatório
(na verdade, um pequeno posto de saúde)
e tentaram reanimá-lo. Talvez resistisse.
Os policiais, que chega-ram logo depois,
queriam saber a identidade do as-sassino.
Porém, havia que esperar. Cicatriz
estava em algum lugar distante, entre a
vida e a morte... não havia outro
jeito... teriam que esperar.
Os agentes foram novamente até o
local do acontecido, para procurar pistas.
As duas facas encontradas, banhadas em sangue,
não serviram para muita coisa. Eram
tantos os ferimentos daqueles dois infelizes
que, certamente, o sangue deles embebera
as armas. Sobre o terreno havia somente
as pegadas dos dois. Os rastros vinham da
rua, contornavam a casa e se encontravam
no lugar onde eles foram achados. Era um
mistério! Parecia que não
houvera mais ninguém por ali. “Mas
por que se enfrentariam?... E daquela forma?
Nem a bebida explicava isso. Sempre se deram
bem... as rusgas eram sempre com os outros,
nunca entre eles... não!... decerto
havia algo mais”. Um dos agentes encontrou
outras pegadas, mas elas se perdiam na esquina
da casa, como se alguém tivesse subido
até o telhado ou saltado para a grama.
Trou-xeram uma escada, então, e,
com extremo cuidado, verificaram o telhado.
Mas não descobriram nenhum vestígio
de que alguém estivera ali. Mistério.
Foi quando Seu Galeno, o pulpero, disse
que na noite anterior tinha visto um vulto
no seu pátio. Saíra atrás
dele, mas não conseguira alcançá-lo.
Os agentes perguntaram como era o tal suspeito.
Mas, como já era de se esperar, seu
Galeno disse que não conseguira divisá-lo
muito bem... embora a noite fosse de lua
cheia, ele somente vira o vulto pela janela,
quando já estava se afastando para
o fundo do pomar. O que podia dizer é
que parecia ser um homem alto, que usava
chapéu. Infelizmente, não
pudera ver mais do que isso.
Resolveram ir, então, até
a pulperia. Lá chegando conseguiram
encontrar as pegadas de um homem, tal qual
o pulpero havia relatado. Além das
do Seu Galeno, havia rastros feitos por
botas. Esses rastros entravam e saíam
do pomar pelo fundo. A terra fofa, molhada
da chuva da tarde anterior, mostrava claramente
o caminho traçado pelo bandido. Ou
me-lhor, os caminhos, pois existiam dois.
Havia que segui-los. Um dos rastros seguia
em direção ao outro lado da
cidade e, por essa razão, um dos
agentes da capital - o que parecia ser o
líder natural dos demais - argüiu
que essas pegadas levariam, certamente,
até a casa do Romualdo. “Finado
Romualdo” – Emendou um dos agentes
locais. O agente da capital que, pelo olhar
de reprovação, demonstrou
não gostar muito da intro-missão,
completou dizendo que as outras pegadas
levariam até a casa do bandido. Eram
essas que deveriam seguir. E assim fizeram.
Depois de saírem da cidade, seguindo
por uma estrada vicinal, chegaram até
o local onde as pegadas atravessavam um
alambrado. Elas levavam até um milharal.
Ali, devido às palhas que se esparramavam
pelo chão, desapareciam. O local
era bem conhecido dos agentes locais. Era
a chácara de um casal muito benquisto
na região: a morada de um agricultor
chamado Camilo e de sua esposa Joaquina.
Os poli-ciais resolveram, então,
visitá-los. Surpreso, Camilo deixou
que revistassem a sua casa e se dispôs
a ajudá-los no que precisassem. Eles,
porém, não encontraram nada.
Confusos, resolveram visitar outra vez os
vizinhos. “Era bem possível
que eles tivessem algo a ver com as ocorrências”.
Mas, como das outras vezes, não puderam
encontrar a mínima pista. Tanto os
Canhada, como os Gorleros, diziam que não
tinham nada para esconder e se tinham, haviam
escondido muito bem – Pensavam os
policiais - pois nada foi encontrado.
Resolveram, a partir daí, fazer
uma ronda permanente naquele local. Revezaram-se
na campana, dois ou três policiais,
noite após noite. Dessa forma quase
uma semana passou-se e nada de verem alguma
coisa. Contudo, havia um indício
importante: desde o começo da vigília
não ocorrera mais nenhum incidente.
Esse era um bom sinal. E isso levantava
ainda mais a suspeita sobre os vizinhos
do casal de agricultores. Como a polícia
estava por perto, eles não agiam.
Dez dias se passaram sem novidade alguma:
nem roubo, nem ladrão. Porém,
no décimo primeiro dia, quando todos
já estavam cansados daquela história,
aconteceu o que esperavam... ou não.
Naquele turno - da meia-noite até
as seis horas da manhã - apenas dois
agentes estavam de guarda e um deles, Silvério
(um dos agentes locais), tinha se afastado
um pouco da beira do alambrado para verificar
o barulho que ouvia no rancho dos Canhada.
Quando regressava, pensando na balbúrdia
que aqueles dois estavam promovendo, foi
que viu o vulto... Ele, Silvério,
estava a uns cinqüenta metros do local
onde o seu companheiro, um dos agentes da
capital, tinha ficado. Forçou as
pupilas, para que a sua visão atravessasse
a escuridão, no entanto, somente
o que pôde ver, devido à distância
e à parca luminosidade, foi o vulto
entrando no milharal. Notou que usava chapéu
de palha e um casaco. Foi um instante e
aquela sombra sumiu, embrenhando-se na plantação,
sem deixar ação nenhuma para
o policial. Silvério correu até
onde estava o seu companheiro. Ali não
havia ninguém... mas, para desconcerto
seu, havia, isto sim, um rastro de sangue
e ele o seguiu. Na valeta, ao lado da estrada,
estava o corpo. Com vários ferimentos
e ainda sangrando, jazia o policial. Ainda
vivia e com um último gesto, num
derradeiro esforço, levantou o braço
esquerdo e apontou para o lado do milharal,
na direção da chácara
de Camilo.
A cidade entrou em comoção.
Levaram Camilo preso. Contra ele, além
do assassinato em sua chácara, existiam
as pegadas que levavam para o milharal.
E mais, havia o testemunho de Silvério,
que afirmava taxativamente que o policial
morto apontara na direção
da sua casa. Para piorar ainda mais a sua
situação, o Cicatriz não
havia resistido aos ferimen-tos. Ele, talvez,
pudesse elucidar aquele caso, afinal era
o único sobrevivente de um encontro
com o bandido. Mas... agora...
Dizem que a cadeia - um pequeno prédio
que muito poucas vezes foi usado - não
serviu de abrigo para a fúria da
população. Dizem, também,
que os policiais (principalmente os da capital),
não fizeram muita questão
de defender o acusado. Quando a turba invadiu,
naquela fatídica madrugada, Camilo
estava sentado num banco de madeira, resignado
em seu canto, conversando com o Silvério,
ainda sem entender muito bem o que havia
acontecido. Perguntava ao seu interlocutor
se ele tinha lhe reconhecido como o assassino
do policial, ao que, Silvério respondera:
- Tenho quase certeza disso, ainda que
eu estivesse um pouco longe, eu pude reconhecer
aquelas roupas... as mesmas que tu usavas
antes: um casaco de gabardina, umas calças
velhas, umas galochas e um chapéu
de palha.
Um repentino relâmpago cruzou a cabeça
de Camilo... uma imagem nítida se
formou em sua mente...
“Mas era impossível... isso
era impossível”!
Quis falar alguma coisa, mas já
os primeiros invasores tinham entrado no
prédio. Não houve tempo para
mais nada.
|
|