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NESSA NOITE, ALÉM
DA CURVA...
O que nos espera, amada minha,
além da curva
Nessa noite de tormenta que é a vida?
Vem!Aperta forte a minha mão, esta
canção
É um caminho sem chegada e sem partida.
Amada minha, eu não
sei nada deste mundo
Ando no escuro desde o dia em que eu cresci
Escrevo frases pra vencer o meu silêncio
E depois penso que não sei porque
escrevi.
Difícil que entendas
este ser que não se entende
Mas não te peço nada mais
que o teu calor
Eu sou tão frágil como um
sonho sem final
Como uma gota de sereno frente ao sol
E quando, às vezes,
eu pareço ser mais forte
É porque busco enfrentar todos meus
medos
Há muito tempo que aprendi que o
universo
É bem maior que esse pouco que eu
compreendo
O que se esconde, amada minha,
atrás da porta
Dessa casa em escombros que é a vida?
Vem!Põe o teu braço no meu
braço, esta canção
Busca aplacar esses fantasmas que me habitam.
Amada minha, eu só
conheço este momento
Todo o meu tempo cabe inteiro num segundo
Mas não preciso nada mais que o teu
sorriso
Pois somos um - e sendo um - somos o mundo!
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CANÇÃO PARA O BALANÇO
DA LUA
Há uma menina deitada
na rede da lua...
No fio de barbante da lua crescente.
E se embala e se embala de
um jeito tão inocente
Que faz do céu uma praça,
da Via Láctea uma rua.
A menina, então, senta,
toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça...
é tão só uma criança!
Para trás encolhida!...
Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à
frente.
Há uma menina sentada
na lua crescente
Na rede impossível de um fio de barbante.
Mas onde se agarra nesse quadro
incoerente?
Nesse fio que se embala cada vez mais brilhante?
A menina me abana, toma impulso
e balança
E, por pirraça, faz graça...
é tão só uma criança!
Para trás encolhida!...
Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à
frente.
E eu penso que é um
sonho que embala essa cena
Pois como pode um balanço agarrar-se
no céu?
Ou será um Deus-artista
que usando da pena
Fez da lua um balanço e do infinito
um papel?
A menina então, grita,
toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça...
é tão só uma criança!
Para trás encolhida!...
Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à
frente.
E ao vê-la descubro...
em um olhar, de repente!
Por que o céu é infinito,
por que a lua é radiante.
E como crescer é injusto
nessa vida da gente,
Quando já fomos crianças a
viver cada instante.
A menina, então sonha,
toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça...
é tão só uma criança!
Para trás encolhida!...
Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à
frente.
E se espicha, e recolhe em
sua mão uma estrela
E ao pegá-la sussurra: 'mal-me-quer...
bem-me-quer'
E, enfim, eu compreendo que
estou vendo, ao vê-la
A menina que acena... no olhar de cada mulher!
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Canto al General
Desde a minha casa, Neruda
Não tão terrestre e marinha
Não tão íntima e universal
quanto a tua
Eu te escrevo.
Muitos anos já escorreram
Rápidos
como esses violentos rios
da tua cordilheira poética.
Muito tempo para os relógios humanos
Mas quase nada
ou nada para o eterno tempo da poesia.
Estás vivo!
Mais do que eu, hermano mío!
Mais do que eu!
E seguirás vivo bem depois
que os meus minutos já não
forem contados.
Mas eu não quero te
fazer uma homenagem.
As homenagens, os louvores, as elegias
não te valeriam de muito.
E sempre te valeram mais os olhares do povo.
As mãos calosas da tua gente,
que são como pedras brutas tiradas
de todas as minas do mundo,
de todos os calabouços terrestres
de todos os subterrâneos úmidos
e escuros
do planeta.
Sempre te valeram mais
as portas abertas daqueles que te acolheram
como um a mais em suas famílias.
dividindo os seus cotidianos de luta por
dignidade
por um sonho ou pelo prato da próxima
refeição.
Por isso não venho
te reverenciar
Jamais te colocaste em um altar!
Tua poesia foi escrita em papéis
de enrolar pão
Em jornais escritos sob a artilharia do
inimigo
(eternos inimigos da tua poesia libertária
da tua poesia humana. Igualitária)
Tua poesia foi lida nas trincheiras. No
front.
E falava de paz
Tua poesia alimentou muitas utopias
em tua frágil Espanha.
em teu traído Chile
Foi a arma indelével dos que enfrentaram
tanques e canhões
Guernica ardia sob os aviões de Hitler.
Santiago ardia sobre os canhões entreguistas.
a democracia do mundo ardia sob as hostes
de Franco.
Mas tua poesia ardia também.
Estrela del Sur.
De los mares del Sur.
Tua poesia ardia aquecendo os corações
de cada Quixote.
Fosse ele um Lorca, um Víctor Jara
ou um soldado desconhecido.
Não foi por acaso que um livro teu
estava nas mãos de um cristo latino-americano
que encontrou a sua cruz nas selvas bolivianas.
Foste a poesia operária de um século.
E a poesia de amor.
E a poesia de sol.
E a poesia de pedra.
E a poesia de mar.
(La tierra se llamó Juan).
De um século que sonhou que o homem
não mais seria
o predador do homem.
Um século que sonhou que a luz chegaria
abrindo as janelas
de todos os porões do mundo.
E ainda que tantas vezes massacrada, destroçada,
metralhada,
a tua poesia se levantou, como as flores
de cada primavera.
Pois sabemos que podem fuzilar os poetas,
mas a poesia não se cala.
Bebe do próprio sangue e o transforma
em vinho e néctar para que outros
poetas se embriaguem com a beleza do mundo.
Tu sabes também, Federico, tu bem
sabes do que escrevo.
A vida se esvai, a poesia não.
E passam tenentes e capitães
E passam coronéis e generais
Passam que passam
Rumo às barricadas da República
espanhola.
E passam tanques e aviões
E passam traidores vestidos de patriotas
Passam que passam
Rumo ao palácio de La Moneda.
E passam marionetes gritando liberdade
E, desde as torres do mundo, esfregam as
mãos
Os vendedores de pátrias repetindo
para suas almas: liberdade!
Liberdade,sim... mas de mercado.
E passam anos, governos, décadas,
revoluções...
Passam que passam
Mas a tua poesia não passa. Perdura.
Morre e renasce em cada sonhador.
A tua poesia que é a irmã
daquelas que engendraram Alberti, Machado,
Lorca, Guillén, Maiakovski, Benedetti
e tantos outros.
A poesia de Cervantes. Do Quixote, mais
real que todos nós.
Ou a de Allende, que é o mesmo que
dizer Quixote.
Ou a do mais humilde mineiro do teu Chile.
Ou a do mais pobre camponês da mais
pobre região da Terra.
Eis o teu legado, Neruda.
Já não se encantarão
meus olhos com os sonhos que perdi.
Mas meus olhos sempre se encantarão
com os versos que deixaste.
Teus versos de capitão de navios
utópicos.
Como aquele legendário Winnipeg que
zarpou rumo ao sul
para salvar tantas vidas ameaçadas
pelo fascismo.
Minha canção não é
desesperada. Devia ser, mas não é.
Outro século nasceu e os mesmos inimigos
do homem seguem nos seus papéis de
predadores.
Explorando para acumularem o que não
poderão gastar em mil vidas terrestres.
E ainda que se utilizem de novas táticas
para conseguirem velhos privilégios,
são os mesmos de sempre.
Estão aí.
Mas não posso me desesperar.
Descobri que a tua poesia nos redime.
Nela a integridade de um ser humano vence
a eterna batalha entre a luz e a escuridão.
Nela descobri que apenas uma luz (uma só!)
pode acabar com um espaço quase infinito
de escuridão.
E esse é, talvez, o segredo de cada
estrela em nosso firmamento.
O segredo que sempre persegui desde que
ainda criança,
comecei a olhar para o céu e questionar...
Me questionar.
Vives, Neruda, vives!
Em teus livros.
Em tuas casas tão plenas de ti.
Em teus poetas seguidores
No sonho de cada camponês la tierra
se llama Juan.
Nuestra terra, amigo.
Em cada pedra dessa cordilheira está
o idioma do teu Canto General.
Guardado pelos séculos dos séculos.
Até o último homem se petrificar
também.
E com ele estará a tua poesia infinita.
E se um dia, em um futuro impensável,
ele retornar à vida
O idioma que falará será o
nerudiano.
Posto que é o que contém todos
os materiais deste planeta.
Vives!
E eu, neste instante que escrevo, ainda
vivo aqui,
compreendo que estarei em breve muito menos
vivo do que tu.
Mas que importa? Vives. E isso me reconforta.
Pois em ti viverei também.
Em tua poesia que é um oceano que
irriga
o pequeno rio de versos que construo.
Mas que sabe do teu imenso caudal.
E sabe, também por ti, vencer as
represas deste mundo.
Por isso eu, vivo aqui, diante do teu imenso
rastro de luz,
venho saudar-te, hermano mío.
Levanto a minha copa e celebro à
tua poesia...
Ou celebro apenas à poesia!
Que sabemos, cá entre nós,
é exatamente o mesmo
que dizer
Neruda.
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O mar
de Alfonsina
Hoje eu quero o mar de Alfonsina
Um poema em corais ao sul sangrando
Vida em cena que acena e se termina
Mas se eterniza entre estrelas naufragando
Uma flor que por amor em vão
germina
E que decide - nesse ato - onde e quando
Pois um oceano é toda alma feminina
Um copo cheio a cada gota transbordando
Podes dormir, pois essas algas
são lençóis
Deixa que a lâmpada eu a baixo mansamente
E se ele chamar eu só direi que já
não estás...
Se quer te ouvir que ouça
o mar dos caracóis
E se quer te ver que veja o mar ao sol poente
Mas se quer te amar... eu só direi
‘tarde demais’!
Mas se quer te amar... amor,
direi
‘que a deixe em paz’!!!
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