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Canções de armar e desarmar
[Lançamento previsto para maio de 2007]
O mais recente projeto, desenvolvido em parceria com Cardo Peixoto, Ricardo Fragoso e participação especial de Paulo Timm | mais
 
 
 
   
 
  Martim César | Literatura | novos poemas inéditos  
     
     

| NESSA NOITE, ALÉM DA CURVA...

O que nos espera, amada minha, além da curva
Nessa noite de tormenta que é a vida?
Vem!Aperta forte a minha mão, esta canção
É um caminho sem chegada e sem partida.

Amada minha, eu não sei nada deste mundo
Ando no escuro desde o dia em que eu cresci
Escrevo frases pra vencer o meu silêncio
E depois penso que não sei porque escrevi.

Difícil que entendas este ser que não se entende
Mas não te peço nada mais que o teu calor
Eu sou tão frágil como um sonho sem final
Como uma gota de sereno frente ao sol

E quando, às vezes, eu pareço ser mais forte
É porque busco enfrentar todos meus medos
Há muito tempo que aprendi que o universo
É bem maior que esse pouco que eu compreendo

O que se esconde, amada minha, atrás da porta
Dessa casa em escombros que é a vida?
Vem!Põe o teu braço no meu braço, esta canção
Busca aplacar esses fantasmas que me habitam.

Amada minha, eu só conheço este momento
Todo o meu tempo cabe inteiro num segundo
Mas não preciso nada mais que o teu sorriso
Pois somos um - e sendo um - somos o mundo!

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| CANÇÃO PARA O BALANÇO DA LUA

Há uma menina deitada na rede da lua...
No fio de barbante da lua crescente.

E se embala e se embala de um jeito tão inocente
Que faz do céu uma praça, da Via Láctea uma rua.

A menina, então, senta, toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça... é tão só uma criança!

Para trás encolhida!... Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à frente.

Há uma menina sentada na lua crescente
Na rede impossível de um fio de barbante.

Mas onde se agarra nesse quadro incoerente?
Nesse fio que se embala cada vez mais brilhante?

A menina me abana, toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça... é tão só uma criança!

Para trás encolhida!... Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à frente.

E eu penso que é um sonho que embala essa cena
Pois como pode um balanço agarrar-se no céu?

Ou será um Deus-artista que usando da pena
Fez da lua um balanço e do infinito um papel?

A menina então, grita, toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça... é tão só uma criança!

Para trás encolhida!... Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à frente.

E ao vê-la descubro... em um olhar, de repente!
Por que o céu é infinito, por que a lua é radiante.

E como crescer é injusto nessa vida da gente,
Quando já fomos crianças a viver cada instante.

A menina, então sonha, toma impulso e balança
E, por pirraça, faz graça... é tão só uma criança!

Para trás encolhida!... Esticada para diante!...
Cada vez vai mais alto, cada vez mais à frente.

E se espicha, e recolhe em sua mão uma estrela
E ao pegá-la sussurra: 'mal-me-quer... bem-me-quer'

E, enfim, eu compreendo que estou vendo, ao vê-la
A menina que acena... no olhar de cada mulher!

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| Canto al General

Desde a minha casa, Neruda
Não tão terrestre e marinha
Não tão íntima e universal quanto a tua
Eu te escrevo.

Muitos anos já escorreram
Rápidos
como esses violentos rios
da tua cordilheira poética.
Muito tempo para os relógios humanos
Mas quase nada
ou nada para o eterno tempo da poesia.

Estás vivo!
Mais do que eu, hermano mío!
Mais do que eu!
E seguirás vivo bem depois
que os meus minutos já não forem contados.

Mas eu não quero te fazer uma homenagem.
As homenagens, os louvores, as elegias
não te valeriam de muito.
E sempre te valeram mais os olhares do povo.
As mãos calosas da tua gente,
que são como pedras brutas tiradas
de todas as minas do mundo,
de todos os calabouços terrestres
de todos os subterrâneos úmidos e escuros
do planeta.

Sempre te valeram mais
as portas abertas daqueles que te acolheram
como um a mais em suas famílias.
dividindo os seus cotidianos de luta por dignidade
por um sonho ou pelo prato da próxima refeição.

Por isso não venho te reverenciar
Jamais te colocaste em um altar!
Tua poesia foi escrita em papéis de enrolar pão
Em jornais escritos sob a artilharia do inimigo
(eternos inimigos da tua poesia libertária
da tua poesia humana. Igualitária)
Tua poesia foi lida nas trincheiras. No front.
E falava de paz
Tua poesia alimentou muitas utopias
em tua frágil Espanha.
em teu traído Chile
Foi a arma indelével dos que enfrentaram tanques e canhões
Guernica ardia sob os aviões de Hitler.
Santiago ardia sobre os canhões entreguistas.
a democracia do mundo ardia sob as hostes de Franco.
Mas tua poesia ardia também.
Estrela del Sur.
De los mares del Sur.
Tua poesia ardia aquecendo os corações de cada Quixote.
Fosse ele um Lorca, um Víctor Jara
ou um soldado desconhecido.
Não foi por acaso que um livro teu
estava nas mãos de um cristo latino-americano
que encontrou a sua cruz nas selvas bolivianas.
Foste a poesia operária de um século.
E a poesia de amor.
E a poesia de sol.
E a poesia de pedra.
E a poesia de mar.
(La tierra se llamó Juan).
De um século que sonhou que o homem não mais seria
o predador do homem.
Um século que sonhou que a luz chegaria abrindo as janelas
de todos os porões do mundo.
E ainda que tantas vezes massacrada, destroçada, metralhada,
a tua poesia se levantou, como as flores de cada primavera.
Pois sabemos que podem fuzilar os poetas, mas a poesia não se cala.
Bebe do próprio sangue e o transforma em vinho e néctar para que outros poetas se embriaguem com a beleza do mundo.


Tu sabes também, Federico, tu bem sabes do que escrevo.
A vida se esvai, a poesia não.
E passam tenentes e capitães
E passam coronéis e generais
Passam que passam
Rumo às barricadas da República espanhola.
E passam tanques e aviões
E passam traidores vestidos de patriotas
Passam que passam
Rumo ao palácio de La Moneda.
E passam marionetes gritando liberdade
E, desde as torres do mundo, esfregam as mãos
Os vendedores de pátrias repetindo para suas almas: liberdade!
Liberdade,sim... mas de mercado.
E passam anos, governos, décadas, revoluções...
Passam que passam
Mas a tua poesia não passa. Perdura.
Morre e renasce em cada sonhador.
A tua poesia que é a irmã daquelas que engendraram Alberti, Machado, Lorca, Guillén, Maiakovski, Benedetti e tantos outros.
A poesia de Cervantes. Do Quixote, mais real que todos nós.
Ou a de Allende, que é o mesmo que dizer Quixote.
Ou a do mais humilde mineiro do teu Chile.
Ou a do mais pobre camponês da mais pobre região da Terra.
Eis o teu legado, Neruda.
Já não se encantarão meus olhos com os sonhos que perdi.
Mas meus olhos sempre se encantarão com os versos que deixaste.
Teus versos de capitão de navios utópicos.
Como aquele legendário Winnipeg que zarpou rumo ao sul
para salvar tantas vidas ameaçadas pelo fascismo.
Minha canção não é desesperada. Devia ser, mas não é.
Outro século nasceu e os mesmos inimigos do homem seguem nos seus papéis de predadores.
Explorando para acumularem o que não poderão gastar em mil vidas terrestres.
E ainda que se utilizem de novas táticas para conseguirem velhos privilégios, são os mesmos de sempre.
Estão aí.
Mas não posso me desesperar.
Descobri que a tua poesia nos redime.
Nela a integridade de um ser humano vence a eterna batalha entre a luz e a escuridão.
Nela descobri que apenas uma luz (uma só!) pode acabar com um espaço quase infinito de escuridão.
E esse é, talvez, o segredo de cada estrela em nosso firmamento.
O segredo que sempre persegui desde que ainda criança,
comecei a olhar para o céu e questionar...
Me questionar.

Vives, Neruda, vives!
Em teus livros.
Em tuas casas tão plenas de ti.
Em teus poetas seguidores
No sonho de cada camponês la tierra se llama Juan.
Nuestra terra, amigo.
Em cada pedra dessa cordilheira está o idioma do teu Canto General.
Guardado pelos séculos dos séculos.
Até o último homem se petrificar também.
E com ele estará a tua poesia infinita.
E se um dia, em um futuro impensável, ele retornar à vida
O idioma que falará será o nerudiano.
Posto que é o que contém todos os materiais deste planeta.

Vives!
E eu, neste instante que escrevo, ainda vivo aqui,
compreendo que estarei em breve muito menos
vivo do que tu.
Mas que importa? Vives. E isso me reconforta.
Pois em ti viverei também.
Em tua poesia que é um oceano que irriga
o pequeno rio de versos que construo.
Mas que sabe do teu imenso caudal.
E sabe, também por ti, vencer as represas deste mundo.
Por isso eu, vivo aqui, diante do teu imenso rastro de luz,
venho saudar-te, hermano mío.
Levanto a minha copa e celebro à tua poesia...
Ou celebro apenas à poesia!
Que sabemos, cá entre nós, é exatamente o mesmo
que dizer
Neruda.

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| O mar de Alfonsina

Hoje eu quero o mar de Alfonsina
Um poema em corais ao sul sangrando
Vida em cena que acena e se termina
Mas se eterniza entre estrelas naufragando

Uma flor que por amor em vão germina
E que decide - nesse ato - onde e quando
Pois um oceano é toda alma feminina
Um copo cheio a cada gota transbordando

Podes dormir, pois essas algas são lençóis
Deixa que a lâmpada eu a baixo mansamente
E se ele chamar eu só direi que já não estás...

Se quer te ouvir que ouça o mar dos caracóis
E se quer te ver que veja o mar ao sol poente
Mas se quer te amar... eu só direi ‘tarde demais’!

Mas se quer te amar... amor, direi
‘que a deixe em paz’!!!


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