Uma voz, um poema
e uma melodia
para percorrer a América latina
Uma voz - vestida de melodia -, me leva na garupa
da poesia e me traz de muito longe minha infância.
Recordo-me da minha bicicleta, da pandorga, da
rua, do campinho onde jogava futebol. Neste momento
a chuva já se vai, mas ainda está
dentro de mim. Essa voz também me fala
da América, nossa América! A América
que é muito pobre em sua riqueza. Com essa
voz, também percorro bares e entre uma
milonga e um tango rememoro os amores que tive.
Essa voz é da Maria Conceição.
“Maria Conceição canta Martim
César & Paulo Timm” é
um lançamento que acaba de vir à
luz e logo estará em alguns palcos do sul
do estado e além das fronteiras que dividem
os povos por bandeiras. Desculpem-me o descompasso
com as palavras, mas ainda estou embriagado com
o disco. O trabalho todo em espanhol traz letras
de Martim César musicados por Paulo Timm
e interpretados por Maria Conceição.
Ou seja, uma união mais que perfeita!
Não sei se alguém escreve os destinos,
mas se há quem os escreva, certamente é
poeta e compositor. Pois este encontro entre os
três aconteceu pela primeira vez há
mais ou menos dez anos. E o primeiro fruto deste
encontro foi a vitória de “Chacarera
libertaria” no 3º CIRIO da cidade de
Pelotas. Nesta oportunidade, ao sagrarem-se campeões
do festival, também eram os primeiros (se
não me falha a memória!), a ganhar
um festival no Rio Grande do Sul com uma obra
em espanhol, além de inaugurarem também
o prêmio de melhor letra pra uma obra no
idioma de Cervantes.
Ao escutar o disco tive a impressão de
que percorria a América, mas a nossa América!
Tão explorada, não somente em suas
riquezas, mas também espoliada nas suas
raízes. Neste disco reencontrei a América
do índio trucidado, das riquezas roubadas,
das guerrilhas contra a opressão. As letras
falam da América esquecida, da América
de pés descalços e lança
na mão que está sendo trocada pela
América de chapéus country e fivelas
lustrosas das novelas. Um das obras que retrata
essa América é “Vidala para
uma tierra olvidada” que foi aplaudida de
pé pelo público do 6º CIRIO
no ano de 1999.
Outras obras me umedecem o olhar, me levando novamente
a minha infância, é o caso de “La
lluvia no Viena sola” e “Si piensas
volver al pago”. Sempre que escuto estas
duas obras, parece que volto ao meu passado, ainda
não muito distante, mas que é uma
saudade emoldurada pelas letras do Martim e a
melodia do Paulo Timm. Algumas obras tratam do
amor, uma delas “Cuando el amor muere em
el alma”, me recorda das vezes que o amor
me disse não nos lábios de alguma
mulher. Em “Tu recuerdo en los espejos”me
senti num bar de Montevideo ou Buenos Aires escutando
uma milonga de Zitarosa ou um tango de Gardel,
bebendo ausência nas mesas vazias...
Recomendo este disco pra quem gosta de letras
com uma mensagem, de uma melodia que se arrancha
na alma e de interpretação com qualidade.
É um disco pra se recorrer a América
dando asas ao pensamento, sem sair do apartamento.
Neste disco se visita povos indígenas,
bares, infância... Enfim, esse disco é
um regalo com sabor de América e Pampa
que os autores nos dão. É escutar
e viajar nas canções!
Antonio Guadalupe Júnior
Lua nova de outubro de 2005.
Martim César, Maria
Conceição e Paulo Timm formam
este tríade que justifica o produto final,
tão belo, tão poético e tão
diversificado e harmonioso.
Três almas fronteiras, que visualizam os
dois lados da linha, brindando e homenageando
a Latino América e a todas as pessoas que
gostam da boa música, do belo poema e da
bela interpretação.
Sem dúvida nenhuma esta obra só
vem a enriquecer o arsenal fonográfico
Latino-americano.
Um abraço aos amigos, muita sorte e obrigado
por esta bela obra.
Xirú Antunes
poeta, compositor e intérprete
Lua Nova / dezembro /2004
Pelotas, RS, Brasil
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